
Imagine o seguinte: Existe uma pista tradicional em seu país que todo ano recebe uma das competições mais equilibradas de automobilismo para uma prova única. Entretanto, de uma hora para outra, este evento simplesmente desaparece por motivos administrativos. O que o organizador do evento faz? Obviamente vai buscar uma solução que permita trazer o mesmo retorno de mídia do evento anterior. É isso que acontece com Surfers Paradise, em Queensland, na Austrália.
Até pouco tempo atrás, esta pista recebi provas da CART/Champ Car, que viajam o mundo para poder andar em um dos mais belos cartões postais da Oceania. Porém, com a junção Champ Car/IRL, Surfers perdeu espaço e acabou sendo retirada do calendário 2010 da Indy, sendo que em 2009 ela foi uma prova extra-campeonato, por já existirem compromissos firmados entre os organizadores da prova com a categoria americana antes da fusão.
Em um cenário desses, era bem provável que a prova diminuísse de tamanho e/ou interesse. Foi ai que os organizadores da categoria foram criativos e buscaram uma solução que fosse capaz de dar o retorno de mídia esperado por todos. A GoldCoast 600 foi a resposta. Uma etapa dupla do campeonato da V8 Supercars com 300 Km de duração cada (por isso o 600 do nome da etapa), realizada no tradicional percurso de rua que trazia uma regra curiosíssima, mas que fez com que a atenção de todos do mundo do automobilismo fossem miradas para esta prova: os pilotos do campeonato local eram obrigados a fazer duplas com pilotos consagrados internacionalmente e eles devem guiar pelo menos 1/3 do total das 2 provas.
Ouve certa preocupação que esta regra tirasse um pouco o brilho dos pilotos locais e que eles não se sentissem confortáveis ao guiar em conjunto com pilotos que trariam uma visibilidade que muitos deles nunca tiveram. Tanto que nos últimos dias houve uma grande repercussão na impressa local sobre os benefícios desta regra. Pelo que consegui observar de muito longe, isso ajudou em muito a promoção para esta corrida. Reunir numa mesma prova pilotos como Andy Priaulx (WTCC), Ryan Briscoe (Indy), Tiago Monteiro (ex-F1 e WTCC), David Brabham (ALMS), Will Power (Indy), Jacques Villeneuve (ex-campeão da F1), Alex Tagliani (Indy), Alain Menu (WTCC), Fabrizio Giovanardi (BTCC), Mika Salo (ex-F1 e atualmente na LeMans Series), Gianni Morbidelli (ex-F1), Dario Franchitti (atual campeão da Indy), Sebastian Bourdais (ex-F1 e atualmente na Formula Superleague), Scott Pruett (ex-piloto da F1 e Indy e atual campeão da Grand-AM), Scott Dixon (Indy), Patrick Long (Grand AM e ALMS), Yvan Muller (WTCC) e Hélio Castroneves (tres vezes vencedor da Indy 500) não é fácil.
Patrocinadores vão ter um retorno muito maior se a prova fosse realizada apenas entre os pilotos locais com audiência de TV e exposição em jornais de todo mundo. Além disso, Surfers Paradise mantem o evento que trás aproximadamente 50 milhões de dólares de investimentos para o local além de trazer mais de 160 mil turistas. Mas acima de tudo, trazendo um nível técnico e de competição para esta etapa que talvez nenhuma outra prova em qualquer campeonato do mundo pode ter ao mesmo tempo.
Talvez outras categorias de turismo possam seguir o exemplo com etapas no campeonato com regras diferentes e que busquem algo bom em todos os aspectos. Seria uma má ideia?